sábado, 27 de agosto de 2011

American Girl

Arrumei mais um trauma de infância (aos 34 anos). Descobri uma linha de bonecas históricas nos EUA chamada American Girl. A ideia é recriar determinados períodos da história americana através de bonecas feitas para serem "amigas" das meninas - e não "filhas", o clássico atributo da boneca. Como tantas coisas americanas, é meio doente: vende-se a boneca, a boneca embalagem premium, a mini-boneca, trocentos vestidinhos diferentes, acessórios e móveis da casa da boneca - a brincadeira pode chegar a 600 dólares por coleção.

Mas o negócio é o seguinte: aprenda história americana com as bonecas, certo? A linha começa com uma índia em 1764, já que depois, com o extermínio das nações indígenas americanas, elas não são mais representativas na História.
Depois seguimos com a mexicana, quando os hispânicos ainda viviam só no Novo México. A Josefina Montoya (todas têm sobrenome e livrinhos contando suas aventuras) tem véu preto de ir à igreja, uma cabra de estimação (!?), um forninho de barro para cozinhar tortillas e um tear para ficar trabalhando em casa. A história da Josefina, segundo o site: "As a New Mexican girl growing up in 1824, Josefina is trying to preserve what is precious after her mother’s passing. Josefina is overjoyed when her mother’s sister, Tía Dolores, comes to live on the family rancho, but worries about her new ideas. Can Josefina welcome change and still remember the old ways?" Uma lágrima caiu do meu olho esquerdo com a história da bonequinha que é ainda da irmã egoísta da Josefina, devidamente um acessório extra: "Mamá made this precious doll, named Niña, to be passed down in a beautiful new dress to each of the sisters on her eighth Christmas. But when Mamá died, Clara was too sad to part with Niña. Still, Josefina hopes that one day Niña will be hers to treasure."


 Josefina com roupa de Natal e a cabrita que é a alegria da família...

Já em 1853, temos as amigas Cécile (mestiça, ou seja, "negra" para os americanos) e Marie-Grace, que vivem em Nova Orleans na época da epidemia de febre amarela (!!?). A Marie-Grace é branca, portanto riquinha, como vemos por seus acessórios: 
Depois, em 1864, temos a bonequinha negra, Addy Walker ("A Cor Púrpura"?), corajosa menina que foge da Guerra Civil e da escravidão! Addy também tem vááários vestidos, óbvio, acessórios de inverno, botas, meias, kit de sorvete (!!?) e sua bonequinha de pano recheada de feijões, que mamãe fez e Addie ganhou de presente de Natal.


Addy com sua roupa de empregada verão, e sua boneca: "The doll shines with a sunny hand-stitched face, a dainty purple dress, and tiny gold earrings."

Em 1914 temos a boneca imigrante russa judia, naturalmente denominada Rebecca Rubin. Representando dois segmentos significativos da sociedade americana, Rebecca tem kit de Hanukkah, xale russo, álbum de fotos, dois gatinhos, cristaleira de Sabbath, cama de balé de Tchaikovsky, e olha só o kit patriótico que ela leva para a escola:
 Lancheira com bagel, picles e rolinhos kosher, e partitura com canção patriótica e bandeirinha para abanar quando canta.

Para 1934 (por que essa fixação com anos terminando em 4?), Kit Kittredge e sua amiguinha Ruth (dobrando os acessórios para cada coleção), "resorceful girls during the Great Depression" (!!?). A vida delas é dura, apesar dos inúmeros vestidinhos, patinete, telefone, boneca de Amelia Earhart (!!?), kit para cozinhar cookies, compotas, cachorro e máquina fotográfica.
 A vida dura da boneca em casa.

Os tempos difíceis ainda não acabaram para a América, pois em 1944 temos a mini-nerd Molly McIntyre e sua amiga inglesa Emily (intercâmbio??). Porém, como estamos longe do palco da guerra, Molly pode nadar tranquilamente com seu maiôzinho, ir à festa mascarada de fantasia havaiana (!!?), esquiar na neve e participar de concursos patrióticos de sapateado.
 Molly tirou os óculos (também vendidos em separado) para dançar, sabe como é.

Para também representar os democratas, temos as amigas hippies chic de 1974, Julie Allbright (ih, republicanos também?) e Ivy Ling (mais imigrantes). Já podemos imaginar a jovem Julie com seus amigos na festinha de fondue, e ouvindo discos em seu quarto:
A perplexidade foi mesmo total quando imaginei uma série equivalente, de bonecas representativas da História do Brasil - com suas roupinhas, acessórios e móveis. Trauma, trauma...


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