Lars von Trier tem esse elemento de peculiaridade muito marcante em seus filmes. Tudo bem, Anticristo realmente não rolou para mim, mas o resto me faz lembrar das sensações que tive ao ver Melancholia. Nos seus filmes, um personagem principal vive uma determinada situação extrema. No começo, tudo parece sem sentido, até que se encaixa progressivamente e continua em um crescendo poderoso em que a última cena é um clímax horrendamente impactante e de tirar o fôlego até tempos depois da sessão acabar. Lembro bem dos desconfortos estéticos do começo de Dogville, do ambiente caótico, aparentemente "pointless" de Os Idiotas, do sufocamento moral em Dancer in the Dark - nesse, fiquei um dois dias chorando...
O desconforto me marcou mais uma vez no início de Melancholia, mas por razões circunstanciais. Acabei me sentando na fileira do gargarejo, lá na frente. O que me deixou irritada a ponto de dormir e boicotar pedaços da primeira parte se revelou uma experiência figadal (tudo menos o clichê "visceral") nos últimos momentos. As cenas bizarras em extremo slow motion que me irritaram no começo viraram epifanias, minhas e de Justine. Não há uma quebra de sentido entre as duas partes, nem um aspecto misógino na caracterização da fragilidade de Justine e da dependência de Claire versus a racionalidade de John. Lars von Trier há tempos tem dito que seus homens racionais não são nada mais do que grandes bobos, por sinal... Não se trata de uma questão de gênero, mas sim de percepções.
Os detalhes fazem o todo no filme, como sempre no diretor. A banalidade cretina da limusine que não faz a curva. O número dos feijões na garrafa; ah, o número dos feijões na garrafa... Claire estranhando por que o mordomo não foi trabalhar, pois nunca pensou se ele tinha família ou não. A espera, literalmente sufocante. A doença (googlada, racionalizada) de Justine, que descobrimos que nada mais é do que a reação ao fim. Os zooms são sempre a chave, os closes nos olhares perdidos.
Acordei de madrugada pensando no final, no detalhe daquela enorme diferença entre as reações de Justine e Claire embaixo da "cabana mágica" e não consegui mais dormir.
E ele usa Wagner, É ÓBVIO:


















